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O mistério da Tenta

O mistério da Tenda

            Ao aproximar-se da igreja do Mosteiro da Transfiguração (e da Encarnação) o primeiro elemento que chama a atenção do peregrino é a estrutura arquitetônica do edifício que tem a forma de uma Tenda retangular. Uma forma não casual mas, ao contrario,  fruto de uma precisa escolha de ordem teológico e pastoral, feita pelo artista Claudio Pastro em diálogo com os monges.

O lugar do culto, desde as primeiras comunidades cristãs, não foi jamais somente a procura de um amparo  físico para permitir à comunidade de encontrar-se num lugar  seguro. Sua escolha foi sempre determinada pela consciência que a  comunidade  tinha de si mesma diante do mistério de Deus. Ela considerava a si mesma como o  “povo da nova e eterna aliança”,  realizada   por Jesus Cristo, crucificado  e ressuscitado, e agora  presente e operante na comunidade  que celebra. Na celebração, ela, na sua qualidade de  “povo sacerdotal” animado pelo Espirito Santo,  oferece a si mesma ao Pai em união com Cristo.

         A comunidade É a verdadeira “igreja” de Cristo, (igreja= comunidade, assembleia convocada por Cristo), por isso pode transferir seu nome também ao edifício onde ela se encontra para viver a comunhão com Cristo e entre seus membros. Sob ação do Espírito, participando às celebrações da Páscoa de Cristo, ela cresce, está sendo “construída” sempre mais em “templo vivo” do Senhor.

Com o passar do tempo esta consciência do valor simbólico do edifício igreja se perdeu. Prevaleceu o conceito da igreja, edifício suntuoso para honrar o  Senhor. Foi recuperada mais recentemente  a partir da renovada visão  teológica sobre a pessoa de Jesus, presença e manifestação do Pai, e sobre a igreja como  povo de Deus a caminho na fé, seguindo Jesus. O evangelho de João, afirma:” O Verbo/Palavra  de Deus se fez pessoa humana e armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14).

Esta imagem  de Jesus, Verbo  de Deus, que arma sua tenda entre nós, recupera e ilumina toda a experiência do povo de Israel na sua peregrinação no deserto para chegar a terra prometida.  Habitava embaixo das tendas como os nômades, e vivia a experiência da presença fiel de Deus que o acompanhava na “Tenda do Encontro”, mediado por Moisés (cf Ex 25 a 31).  Deus cuida do seu povo e está a caminho com ele !

         Quando o rei Davi, no seu sentido de gratidão ao Senhor, pensa construir um templo para o Senhor, ouve o Senhor responder por meio do profeta Natan: –

“Durante todo o tempo em que andei com os israelitas no deserto, porventura disse   a um só dos juízes…por que não edificais para mim uma casa de cedro? (2 Sam. 7, 7. 11).

Quando será construído em Jerusalém  o famoso templo por Salomão  filho de Davi, como sinal privilegiado da aliança  de Deus com Israel, e da sua proteção, os profetas alertarão sempre  o povo pra que  não se engane pela presença  do templo, enquanto  continuam  a viver  um vida desregulada ( cf Is 58).

         Afirmar com o evangelho de João que em Jesus “a Palavra de Deus armou sua tenda entre nós”, significa proclamar e viver a fé em Jesus, reconhecendo nele a manifestação plena e definitiva da presença de Deus na história, e reconhecer que a igreja constitui o povo de Deus a caminho rumo o encontro final com o Pai na “Jerusalém celeste” (Ap. 21). Jesus realiza em si mesmo aquela que devia ser a função simbólica do Templo: presença viva de Deus na história e na vida de cada um ( Jo 2, 19-21).

Quando  a vida dos discípulos  será  transfigurada e conformada a Cristo, também a comunidade humana no seu conjunto será “habitada por Deus”, será o seu “templo vivo”. E a vida vivenciada no amor, será o nosso “culto em Espírito e verdade”, como Jesus o realizou em si mesmo e nos ensinou a cumprir junto com ele (Jo 4, 24). A cidade, construída em Deus, não precisará mais do “edifício” do templo, pois “Ela mesma será   o templo habitado por Deus.”                                        O povo de Deus alcançará a meta da sua peregrinação  que é a plena partilha da vida com ele.  

Ao longo do caminho é necessário que tudo seja de valor relativo na vida pessoal e da igreja. Que tudo o que fazemos, mesmo sendo útil,  e sendo “templo”, seja relativo, na espera da vinda gloriosa de Cristo.    A Tenda dos nômades na fé, deixará  o lugar à Casa de Deus, e, acolhidos na sua intimidade como filhos e filhas,  se revelará  na sua  originaria função  de   ser  também Casa das Famílias.  

                                                            Don Emanuele Bargellini

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