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Caros amigos e amigas, coloco o Roteiro do Retiro oferecido aos oblatos e amigos do Mosteiro no dia 12 de abril, a disposição de quem deseja viver o mistério da Páscoa do Senhor com maior consciência da riqueza insondável desta graça e com profunda gratidão ao Senhor.                                                                                                                                                                                     

1 - A experiência cristã é um itinerário junto com  Cristo morto e ressuscitado

 

A linguagem da liturgia. A Semana santa, com a linguagem simbólica dos ritos, nos coloca no centro do mistério de Cristo e da nossa pessoal participação a ele.

Domingo dos Ramos: é a porta que introduz no mistério pascal. A assembléia  se constitui em lugar aberto ao redor da Cruz, para celebrar a entrada de Jesus em Jerusalém como Messias, pacifico e humilde.  Abençoados os Ramos, o povo se põe a caminho seguindo o Senhor na cruz.

Solene Vigília do sábado santo: A assembléia  se constitui em lugar aberto ao redor do fogo novo. Abençoado, dele se acende o Círio Pascal e do círio pascal se acendem as velas da assembléia.  O povo se põe a caminho na noite,  seguindo o Círio, símbolo de Cristo luz,  e dele recebe a luz que ilumina seu caminho, até chegar à igreja plenamente iluminada, para  cantar com alegria o nascimento, em Cristo ressuscitado do novo dia que não conhece por do sol!  (Exultet – Historia da criação e da salvação: 7 leituras do AT  – 2 do NT:  Mt 28,1-10: Evangelho da ressurreição – Rm 6, 3-11:Participação à nova vida e nova historia mediante o batismo.

            A grande Vigília  é caracterizada pela celebração memorial da  morte- ressurreição de Jesus, centro da história e da mesma criação,  e pela celebração da Iniciação Cristã do catecúmenos  (Batismo - Crisma – Eucaristia), e pela renovação das promessas batismais por parte dos fieis.  A morte - ressurreição de Jesus continua no nascimento dos neo- batizados e no crescimento dos fieis.

            O desenvolvimento da Vigília nas sua 4 partes: liturgia da luz – liturgia da palavra – liturgia batismal – liturgia eucarística, proclama e nos faz viver atualizado no hoje, o dinamismo da ação criadora e libertadora do Senhor, que continua no povo de Deus peregrinante, enquanto com firma esperança aguardamos e caminhamos rumo o seu cumprimento escatológico.

A páscoa é ponto de chegada de um longo caminho de preparação e de espera,  e inicio de um itinerário no seguimento de Cristo,   que  durará a vida inteira, de conversão em conversão a Ele. “Fui crucificado junto com Cristo.Já não sou eu que vivo , mas é Cristo que vive em mim. Esta vida na carne vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a se mesmo por mim” (Gl 2, 19-20).

Ó Deus, por vosso filho unigênito vencedor da morte, abristes hoje para nós as portas da eternidade. Concedei que, celebrando a ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos na luz da vida nova.” (Oração do dia de Páscoa )

             A vida do batizado em Cristo é um processo de morte e de ressurreição que tem no próprio Ressuscitado e na celebração memorial do evento pascal, seu inicio e a nascente inesgotável do dinamismo de uma existência sempre nova, na medida que se abre à ação do Espírito .

            Itinerário evoca movimento para frente. Este movimento se qualifica de “espiritual” no sentido que se realiza  somente enquanto somos movidos pelo Espírito  Santo: ”Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus” (Rm 8,14).

            Todos os aspectos da vida de quem se deixa guiar pelo Espírito,  constituem “ a vida espiritual”:  trabalho, descanso, atividade profissional, vida familiar, atividade econômica e política, dores e alegrias, etc , se vivenciados sob a ação e os critérios  do Espírito e do evangelho, constituem nossa vida espiritual, não menos da  oração, da ascese, da liturgia, etc...

            “Tu que seguis ao Cristo e és seu imitador, se permaneceres na Palavra de Deus, se meditares na sua lei dia e noite, se te exercitares nos seus mandamentos, então estarás sempre no santuário e dele não sairás jamais. Pois deves buscar o santuário não num lugar, mas nas ações, na vida e nos costumes. Se estes são segundo deus e correspondem a seu preceito, mesmo quando tu estiveres em casa, mesmo nas ruas da cidade....mesmo se te encontre no teatro, se permaneceres servindo ao Verbo de Deus, não tenha dúvida: tu estás habitando no santuário “ (Orígenes, Hom. 12,4; sobre o Levítico ; SC 287, pg 182).

            Esta unidade interior e harmônica da existência  movida pelo Espírito,  as vezes é mais  um  “ inicio e uma potencialidade”  que uma  experiência plena. Ela continua sendo  objeto de esperança a procurar com  paciente perseverança . Ela é um caminho com  etapas e passagens sucessivas, que precisas de  repetidas “páscoas”, aceitando  morrer com Cristo a tudo o  que nos impede progredir na conformação a Ele,  morrer ao  “homem velho”, para  crescer na  livre obediência  ao seu Espírito.

 

2- A experiência  espiritual é  experiência  de  vida que se identifica progressivamente com a vida de Jesus.

 

            Pelo batismo nos foi doada a sua mesma vida de filho, de liberdade e de amor. Usando a linguagem simbólica de Paulo, nós fomos “enxertados” em Cristo , que é a“oliveira santa”, recebendo sua mesma  seiva vital, (cf Rm 11, 17 -24);  fomos “transplantados” nele, como órgãos vivos do se mesmo corpo (cf I Cor 12, 12-13). Ser cristãos não  é simplesmente seguir os ensinos de Jesus, sua doutrina, mas partilhar, por graça, da sua mesma vida divina,  viver uma constante relação vital com ele! A experiência  da páscoa de Jesus com o batismo funda  uma  “ética da relação” pessoal com Ele, não simplesmente  uma “ética  dos deveres”. Os comportamentos nascem da relação pessoal.

Certo, é um inicio, uma potencialidade, uma “semente divina”. Temos toda a  responsabilidade  para que o nosso solo ofereça condições favoráveis para o crescimento da semente. O divino semeador é generoso para com todos, mas a sorte da semente depende muito das condições que o terreno  apresenta (cf Mt 13, 18-23). O mistério do pecado  está presente em nós, junto com o mistério da graça, do perdão e da conversão.

 

3 – Um caminho que conhece  provações e crises e  exige discernimento  espiritual

 

            Mortos ao pecado com Cristo e renascidos à vida no Espírito, estamos já  com um pé nos céus (cf Ef 2, 6), capacitados a viver  na terra como “ressuscitados em Cristo”(Cf Cl  3, 1-3).  Este caminho conhece ainda, como seu elemento constitutivo e  inevitável, limites e passagens  através de provas e crises. Vivemos o dom do reino de Deus na dinâmica da historia, pessoal e comunitária.

Limites, provas e crises, não esbarram o caminho. Na misteriosa pedagogia de Deus têm uma função positiva :descobrimos nossa fragilidade.  “Quando sou fraco, então sou forte!” (2 Cor 12,10).    E  nos abrem  à ação gratuita de Deus:”Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus,mas foi ele que nos amou e  enviou-nos  seu  filho como vitima de expiação   pelos nossos pecados” (I Jô 4, 10).

Tomamos consciência que o primeiro protagonista e garante da nossa vida espiritual, não somos nós mas o Senhor.  A experiência do limite e do pecado, na perspectiva cristã, não gera sentido de culpa, que oprime, mas a  humildade que confia na misericórdia e abre ao perdão do Pai “que não se cansa jamais de perdoar” ( Papa Francisco).

            Individuar os espinhos que podem sufocar a semente divina  em nós, ou as pedras que a podem deixar secar,  e adotar as providências para limpar  o terreno do coração, é  prioridade absoluta na vida espiritual. Esta cura cuidadosa do terreno do coração,   coincide com o processo de discernimento espiritual.  Se trata de olhar e  examinar  cuidadosamente  as atitudes profundas e os pensamentos que ocupam e preocupam   nosso coração: eles  determinam nossa maneira de ver  a vida e as coisas e de  fazer nossas escolhas  concretas de cada dia, embora as vezes nem persebamos.

            Precisamos da sabedoria do Espírito, que  “é a graça de poder ver cada coisa com os olhos de Deus. É simplesmente isso: é ver o mundo, ver as situações, as conjunturas, os problemas, tudo, com os olhos de Deus…. isto deriva da intimidade com Deus, da relação íntima que nós temos com Deus, da relação de filhos com o Pai. E o Espírito Santo, quando nós temos esta relação, nos dá o dom da sabedoria. Quando estamos em comunhão com o Senhor, é como se o Espírito Santo transfigurasse o nosso coração” (Papa Francisco, Homilia do dia 9/04/2014)

O “discernimento no Espírito” constitui o eixo central no caminho espiritual. Por isso os padres  da igreja, e sobre tudo os padres da vida monástica,  deram tanta importância a ele. Cassiano (um monge muito importante do século V, uma verdadeira ponte da espiritualidade entre o Oriente e o Ocidente), destaca com vigor que o monge, ao procurar de unificar a sua vida em Cristo, precisa  exercitar com muita atenção o discernimento espiritual, (a discrição). Ele oferece muitas sugestões teóricas e práticas, dedicando ao assunto a primeira das suas chamadas “Conferencias”,  uma espécie de Intervistas com os monges do  deserto no Egito.

            Para Cassiano,  o fim e a meta   da vida do monge é a sua progressiva identificação  com o reino de Deus, a vida no Espírito. Mas  a condição para chegar a esta meta é a pureza do coração, que coincide com a caridade, com o amor. Para sustentar este processo de purificação do coração e libertar a caridade em todas as sua potencialidades,  é de ajuda a ascese do corpo e  a simplificação  da mente: é condição  para    colocar o Senhor ao centro da própria vida.  Discernir e seguir  o que vem do Espírito, deixar cair o que vem do  espírito do maligno e do “homem velho”, como diz Paulo.  

Para exercitar com sabedoria  o justo discernimento, é importante  “viver em  comunhão com  a igreja”,  que é comunidade de fé,  onde cada um  recebe e partilha  ajuda e luz,  reciprocamente.  Outro elemento de grande importância  destacado pelos padres monásticos, é  a humilde abertura do coração ao padre espiritual, para  um conveniente  acompanhamento  pessoal, a fim de ser ajudado a discernir  o que favorece o crescimento da semente divina e o que a  impede, bem como para curar nossas feridas.

Encontrar  um pai espiritual é uma graça, pois a paternidade espiritual é um dom do Espírito, não um titulo institucional, e ninguém pode auto-nomear-se padre espiritual. Hoje, é ainda mais difícil  pela situação de transição radical que estamos vivendo na igreja e na sociedade. Desde sempre os pais do monaquismo estavam conscientes disso, e não acabam de sugerir de rezar para encontrar esta graça.

 Mas é necessário discernimento,  também na escolha da pessoa  a quem abrir-se e entregar-se.

Cassiano mesmo põe na boca do experiente abade  Moisés esta cortante afirmação : “ Não devemos seguir os passos ou acolher a doutrina e os conselhos de todos os anciãos, só porque têm a cabeça branca e a vida longeva, mas, apenas daqueles que soubermos que, em sua juventude, levaram uma vida digna de estima e reconhecimento e se formaram na tradição dos antigos e não em suas próprias idéias orgulhosas” ( Conferência  2; n.13;Vol. 1, pg. 65;   Editora Subiaco, Juiz de Fora)

            Este assunto é tão determinante no caminho espiritual, que  Cassiano dedicará  a ele a inteira Conferencia 2, que tem o titulo “Da discrição”.

            Na tradição monástica a atenção às experiências e ao ensino dos pais se torna fundamental, não para amarrar as pessoas  a repetir o passado, como pretende um certo tradicionalismo superficial, mas para facilitar  o discernimento sobre os  passos que cada geração e cada pessoa é chamada a fazer, para progredir com o movimento da história, guiada pelo Senhor.

            Na  época moderna, o psicólogo parece ter ocupado, muitas vezes em maneira totalizante, o lugar  da pessoa que, não simplesmente por conhecer os dinamismos da psique humana, mas por viver uma vida iluminada pelo Espírito, pode ajudar quem procura trilhar o mesmo caminho. Valorizar o aporte das ciências humanas e psicológicas  é uma preciosa  oportunidade que, por sua vez,   precisa  ser integrada com o discernimento  que tem presente a misteriosa ação do Espírito na pessoa e nas comunidades.

            Deixar transformar o “homem velho” no “homem novo”, a “carne” em “Espírito” é processo comprido e complexo. Paulo fala abertamente de um “conflito interior” que nos acompanha, as vezes em maneira dramática. Os padres monásticos falam de uma “luta espiritual” que solicita sempre “ o soldado de Cristo”. (cf Ef 6, 10-17) a vigiar  para reconhecer  as insídias do inimigo e procurar no Senhor a força e o abrigo (cf Vida de São Romualdo c. 7;16;17; 61). Saber reconhecer as modalidades insidiosas com que o inimigo nos prepara os laços  das tentações, faz parte  importante do processo de discernimento (cf Papa Francisco, Homilia  do dia 11/4/14: a táctica do inimigo se desenvolve por etapas e sucessivos tentativos:  suave no início  – contagiosa  com os outros – auto- justificativa).

 

4- Um caminho que nos conduz  à inefável  experiência da  “divinização”

 

            Se o caminho espiritual  é marcado por provações e tentações, sua meta  é exaltante, e vai além de toda expectativa humana.  É fruto de pura graça: é a “divinização” da pessoa humana, como se exprimem os padres do Oriente,  a partilha sempre mais profunda da vida mesma de Deus! Uma ousadia que o próprio Senhor fundamentou com sua “condescendência ” e  seu “rebaixamento”.

 “Oh surpreendente intercambio! Deus se fez homem a fim de que o homem se torne Deus”(Antífona de Natal).

            O contato profundo e continuativo com o Senhor, na própria interioridade, é exigência fundamental para  alimentar a vida espiritual e, ao mesmo tempo, constitui seu fruto mais amável.  A modalidade primeira para sustentar este contato é a escuta/leitura da sua palavra, feita com espírito de fé  e de oração. Uma leitura orante, que não empenha somente o intelecto, mas sobretudo o coração, a raiz da nossa vida:  uma  relação de pessoa a pessoa. Este contato pessoal,  feito pelo impulso do Espírito, nos faz descobrir o sentido vital e atual da Palavra para nós, para mim, hoje. Quando e na medida que isto acontece, muda a vida. É o verdadeiro “acontecimento” da Palavra, e seu cumprimento .

O diálogo vital na interioridade, precisa de um clima de recolhimento e de concentração para libertar nosso espaço interior, um espaço tranqüilo e silencioso: silêncio de palavras e ruídos exteriores, e sobretudo silêncio em relação as tantas preocupações, distrações, desejos, ansiedades. Precisamos exercer na interioridade da mente e do coração o jejum e a sobriedade.

É conveniente escolher  algum tempo mais favorável, dentro do ritmo do próprio dia, para criar e cultivar este silêncio e diálogo interior, e  procurar de ficar fiel. A organização da Liturgia das Horas, que valoriza o ritmo do tempo natural e das atividades humanas, é um símbolo desta atenção ao diálogo interior, inserido no ritmo da vida cotidiana.  Com o tempo, esta auto-disciplina ajuda a desenvolver o sentido da presença do Senhor, que orienta a vida,  e acaba tornando-se quase  sua respiração natural !

Ao final das contas,  não é este o desejo mais profundo do nosso coração  e a promessa do Senhor ?

Santo Agostinho interpreta muito bem este anseio profundo do coração e a admirável  resposta do Senhor: “Tardiamente te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tardiamente te amei!  Eis que tu estavas dentro de mim, e eu me mantinha do lado de fora e, deformado como era, lançava-me sobre estas coisas belas que tu criaste.....Chamaste-me, gritaste e venceste a minha surdez....Fulguraste teu esplendor e puseste em fuga minha cegueira ; exalaste teu perfume, aspira-o, e agora anseio por ti, degustei-te, e agora tenho fome  e sede. Tocaste-me, e agora ardo de desejo por tua paz (Confissões, liv. X, c. 27).

 

                                                                                              Don Emanuele Bargellini OSB Cam

 

Mosteiro da Transfiguração 12/04/2014