D. Anselmo OSB Cam - Um Pioneiro
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D. ANSELMO, UM PIONEIRO

por D. Emanuele Bargellini OSB Cam

Most. da Transfiguração, Mogi das Cruzes – SP, Br.

Uma lembrança filial

Na manhã de 11 de outubro de 1962, à luz de um extraordinário dia do outono romano, D. Anselmo estava desfilando na praça São Pedro, junto com outros dois mil Padres conciliares, para entrar na Basílica, e participar da solene abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, promovido pelo papa João XXIII.

Tive a ventura de encontrar-me a seu lado, chamado para seu “assistente”, conforme o cerimonial do Concílio, como ajudante e acompanhante na solene procissão que, iniciada nas salas nobres do Vaticano, levaria os Padres até o meio da basílica apostólica.

Aquele dia foi um evento memorável e emblemático para a Igreja Católica, abrindo um processo dinâmico, que mudou profundamente o seu rosto. Estava para soar, dali a pouco, o grito de fé e de alegria do velho Papa que, à semelhança daquele do velho Simeão, em breve, seria repercutido por todo o mundo: “Gaudet mater ecclesia” “A mãe Igreja se alegra porque... afinal, surgiu o dia tão desejado, no qual... ela inicia solenemente o Concílio”.

Numa perspectiva bem mais modesta, mas não menos interessante para nós, aquele foi um dia de grande relevo, também para a pequena Congregação Camaldolense.

Para D. Anselmo, revestido do solene aparato abacial herdado da supressa congregação camaldolense cenobítica (1935), era o alvorecer de um dia que ele, talvez, não tivesse nem mesmo ousado sonhar, durante a longa noite das angústias e das expectativas que o haviam acompanhado e atormentado, a partir daqueles anos 20, quando ainda jovem noviço e professo, na solidão do Sacro Eremitério.

Foi aquele o primeiro decênio em que, sob as ameaças de eventos dolorosos, como o forçado fechamento da promissora fundação no Brasil (1899-1926), e sob o estímulo dos estudos que acompanharam o IX centenário da morte de S. Romualdo (1927), na família camaldolense tinham começado a tomar forma, as primeiras tentativas de conhecer e repensar a própria memória e a própria identidade, para responder às novas exigências da pequena congregação em fase de retomada.

Comove-me profundamente o fato de hoje, me ser dado, enviar, do Mosteiro da Transfiguração, esta afetuosa e grata recordação de D. Anselmo, longínquo herdeiro daquela primeira florescente fundação brasileira. O seu fechamento - por autorização do Visitador apostólico, o abade Ildefonso Schuster, - estava, com efeito, entre os eventos que mais tinham contribuído para suscitar no jovem monge casentinense, a exigência imprescindível e a determinação de descobrir as fontes autênticas do espírito camaldolense. Para restituir-lhe o respiro da sua fecundidade original e a amplitude da sua articulação, em diálogo com a nova situação da Igreja e da sociedade.

Era a mesma intuição que tinha impulsionado o papa João XXIII a convocar o concílio, com o intento de reconduzir a Igreja às fontes da originária experiência e inspiração evangélica, para dar-lhe de novo, a ela mesma, a força e a capacidade para dialogar de modo vital com os homens e as mulheres de hoje.

Aquela manhã de 11 de outubro de 1962, enquanto, jovem sacerdote ordenado há, apenas, alguns meses, caminhava eu ao lado de D. Anselmo, sustentando a falda do pesado Pluvial branco. Jamais imaginei que hoje teria podido enviar uma lembrança filial dele, do lugar símbolo dos seus sonhos de renovação.

Chamar-me a seu lado naquele momento altamente simbólico, era também, de sua parte, uma espécie de transmissão, do dever de levar avante o projeto de um novo diálogo entre tradição e contemporaneidade, entre memória e profecia. Uma espécie de transmissão às novas gerações camaldolenses, por ele cuidadas com tanto amor e empenho, nos novos horizontes da formação.

D. Anselmo, em profunda sintonia de amizade e de intenções com D. Benedetto Calati, a partir dos anos 30, tinha orientado um duplo e doloroso êxodo das estreitas visões do carisma camaldolense. Carisma que os supérstites da supressão de 1810 e de 1870 conseguiram conservar, reduzida à dimensão exclusivamente eremítica, para todos e para sempre.

Êxodo do quase total conhecimento das fontes camaldolenses, e saída das mesmas, como único ponto de referência. Era necessária esta referência para contextualizá-las no mais amplo campo das fontes patrísticas e bíblicas da própria experiência de Romualdo e dos seus discípulos, e para repensá-las no cadinho da contemporaneidade.

As primeiras pesquisas históricas e as audazes reflexões teóricas que D. Anselmo ia elaborando e publicando no modesto Boletim trimestral CAMALDOLI, - a partir de 1947, e ainda mais, de 1951, ano da sua eleição a Prior Geral, - abriam horizontes, capazes de entusiasmar os jovens professos e de suscitar consensos entre os mais prudentes dos anciãos. Mas, capazes também de provocar fortes reações e contrastes, em quantos suspeitavam aí certa traição da sagrada tradição.

Sorte frequente dos pioneiros

Conceitos como ‘substância viva da tradição’, a distinguir das suas formas históricas, ‘fidelidade dinâmica à inspiração originária’, a reelaborar no confronto com o evangelho e com as mudadas condições dos tempos, palavras e critérios tornados familiares a partir do concílio para orientar a renovação da Igreja e da vida religiosa e monástica, eram ainda patrimônio inicial de uma pequena minoria na Casa camaldolense.

“Agiornamento”, palavra chave da mensagem conciliar do papa João XXIII, tinha começado a circular nos escritos de D. Anselmo, na revista CAMALDOLI / VIDA MONÁSTICA, a partir da metade dos anos 50. Ele fazia cópias com termos como verdade, liberdade, seriedade progresso, responsabilidade, indicados como características fundamentais da vida camaldolense, desde o aparecimento da revista, em 1947. Mas soavam duras e quase blasfemas para muitos ouvidos.

Se certas características duras do seu temperamento natural não contribuíam para amenizá-las, não foi certamente só por isto que as resistências aos horizontes de renovação levaram ao seu brusco afastamento do ofício de Prior Geral em 1963. As mesmas autoridades curiais estavam ainda longe de fazerem próprios os critérios de renovação das comunidades religiosas, que teriam sido dados pelo concílio e para sustentar quem os promovia.

Porque, uma característica de D. Anselmo, era a de procurar dar aos horizontes ideais, formas organizativas concretas; era de traduzir as ideias em perspectivas pastorais e “projetos políticos”. Também para alguns de seus relacionamentos eclesiásticos e políticos de alta qualidade, como a amizade com Padre Mariano Cordovani, e Mons. Giovan Battista Montini, com Amintore Fanfani e Giorgio La Pira, a tensão espiritual e cultural nele tendia a tornar-se práxis, e a torná-lo muito sensível a situações sociais e políticas, mesmo modestas, mas significativas.

Na vida da comunidade monástica, como nas realidades sociais:

- da reorganização da economia de Camáldoli, à restauração radical da hospedaria do Mosteiro;

- da reestruturação dos estudos para os jovens monges provenientes do Colégio interno, - a fim de que enfrentassem a escolha monástica com liberdade - à abertura de um Campus para estudantes universitários no Mosteiro de São Gregório al Celio,

até à atenção dada, nos anos de sua segunda permanência em Roma (70-90), à nascente Comunidade de Santo Egídio e às Irmãs Missionárias da Caridade, de Madre Teresa de Calcuttá.

O longo e sofrido silêncio que se seguiu ao seu afastamento como Prior Geral, não foi estéril. A Igreja caminhava com o Concílio, com velocidade e profundidade bem mais consistente que aquela com que os opositores internos e externos tinham procurado bloquear em 1963. D. Anselmo mesmo e D. Benedetto, cuidaram de “salvaguardar” os jovens monges, mantendo-os totalmente alheios às contendas internas da congregação, e empenhado-os, ao invés, no fecundo trabalho conciliar da Igreja.

A edição das novas Constituições ocorreu no horizonte totalmente novo do concílio, entre os anos de 1967 a 1969. Elas foram redigidas com critérios mais abertos e globais do que aqueles que muitas vezes D. Anselmo tinha tentado adotar. A publicação viu os dois protagonistas dos longos anos da renovação camaldolense, membros da comissão encarregada, mas em posição voluntariamente assumida, para permitir que o encontro entre os antigos opositores e as novas gerações camaldolenses conciliares acontecesse em plena liberdade.

Uma escolha inteligente de fé e caridade, que produziu frutos inesperados:

foi a aprovação quase unânime das novas Constituições e o abraço de paz e reconciliação, sincera e definitiva, entre os antigos opositores e D. Anselmo, na Missa de encerramento do Capitulo Geral de 1969, presidido - ainda esta uma novidade inimaginável! - poucos anos antes, pelo novo Prior Geral, D. Benedetto Calati.

Este percurso, delineado por pequenos fragmentos, em base do longo relacionamento de que me foi feito dom, e do filial reconhecimento que então devemos a D. Anselmo, é uma herança de fé, de caridade e de esperança operosa. É um legado de conteúdos e de método, da espiritualidade camaldolense e do Concílio, que resumem bem os dados essenciais para construirmos, nós também, um percurso de vida cristã e monástica, autêntica e fecunda.

É isto que nos auguramos e esperamos, também pela intercessão de D. Anselmo e de D. Benedetto, em condições agora, de ver também a nossa pequena história na luz surpreendente de Deus.

(Por ocasião do 50º  aniversário da abertura do Concílio Ecumenico Vaticano II.

11-10-2012