Homilia Solenidade Imaculada Conceição
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SOLENIDADE DA IMACULADA  CONCEIÇÃO

 

CONTEMPLAR A GLORIA DE DEUS NO COTIDIANO

 

LEITURAS: Gn 3, 9-15.19; Ef 1,3-6.11-12; Lc 1,26-38

 

            O trem do tempo corre veloz rumo seu destino  do fim deste 2013. Todo mundo está por sua vez correndo, atarefado para concertar as contas do dia dia, dos projetos elaborados no inicio do ano  como condição de bom sucesso, dos sonhos  que deram ao caminho tão normal da vida o  sabor do  excecional. Quanto sobra de tudo isto?  Talvez alguns  estejam  também atarefados para organizar as compras de Natal,   e comprometidos para preparar em casa o Presépio, quem sabe?

Hoje tive a sorte de  ler na Folha de São Paulo uma interessante coluna, escrita por Marcelo Gleiser: “Por que tanta pressa?”.  Isso mesmo: Por que tanta pressa? E todo dia nos deixamos  roubar  nosso tempo interior, nosso contacto com a realidade profunda de nós mesmos, com a voz que sobe do coração e que traz consigo as sugestões mais preciosas para orientar nosso caminho.

“Muita gente me pergunta – escreve o autor – se o tempo está mudando, passando mais rápido.” Ele responde: “ A primeira palavra que me vem em mente quando penso na vida  moderna é dispersão”.  E observa que “ o tempo está passando mais rapidamente, ou assim percebemos, porque cada vez temos menos controle sobre ele”,  a motivo da nossa necessidade crescente de estar “ligados” com o que está acontecendo, e já não basta radio e televisão...”.

“Dispersão”, palavra que vem de longe, da sabedoria  de Jesus, quando nos fala da experiência do filho pródigo fugido longe da casa do pai e de si mesmo, e que a memória do amor do Pai faz ao fim  “cair em si mesmo” (Lc 15,17), e o  atrai  de volta  para a casa do Pai,  reiniciando uma nova historia. (cf Lc 15, 11-32).

“Dispersão”, palavra que vem de longe, da sabedoria dos padres da vida monástica, como São Bento, que, depois de uma triste experiência de  falido tentativo de reformar um grupo de monges que se mostraram incorrigíveis, aprendeu na solidão a “habitar consigo mesmo” e  a recompor sua unidade interior numa nova e autêntica relação com o Senhor. Nesta profundidade ele encontrou a verdadeira fecundidade espiritual, graças à qual conseguiu  orientar para a vida autenticamente monástica uma multidão de  discípulos. Fecundidade que nasce do silêncio.

O biografo de São Bento, São Gregório  Magno, que por sua vez era um homem de vigorosa ação civil e espiritual, observa em termos gerais que tocam também nossa experiência pessoal: “De fato, sempre que por uma preocupação excessiva somos arrastados para fora de nós, não resta duvida que continuamos a ser nós mesmos, mas não estamos mais  em nós mesmos, porque deixamos de olhar para dentro de nós e vagamos pelas coisas com as quais nos preocupamos”          ( Vida de São Bento, cap 3, n. 5).

Passar da “dispersão”  para a  presença a nós mesmos, ao mistério que nos habita,  e que é o Espírito do Senhor, nascente inesgotável  da nossa vida, mestre que nos guia com sua sabedoria, luz que orienta nossos passos no caminho certo.  Esta é a conversão à qual nos chama o Senhor.  Este é o verdadeiro espírito do Advento, que diz  atenção, escuta, discernimento, escolhas sábias.

Com quem  e com que estamos “ligados” durante o dia ? Com  o interior que nos alimenta, ou com o  exterior sem medida, que nos  disperdiça na procura insaciável  de algo de novo ?

O tempo de Advento, é tempo que nos solicita para uma  atitude da escuta, do silencio interior, da interiorização da Palavra  de Deus, que nos alcança em tantas maneiras e que no Natal contemplamos  no seu “fazer-se carne”, no seu identificar-se com nossa frágil situação,  para que nos deixamos habitar pela sua energia vital.

Hoje, segundo Domingo do Advento, celebramos  celebramos  a  Solenidade da  Imaculada Conceição. Em Maria, nossa Mãe,  contemplamos a infinita e surpreendente gratuidade da graça com que o Senhor a integrou perfeitamente a si mesmo, libertando-a de todo mal . Nela contemplamos nossa vocação e destino: tornarmos nós também pessoas que se deixam possuir totalmente pela vida do Senhor. Ou, como dizia Jesus: “ quem acolhe a palavra de Deus e a pôe em pratica, ele se torna para mim, irmão, irmã e mãe”.

Que o Senhor nos conceda  a disponibilidade total da nossa  vida para seu amor, como  Maria: “Eis aqui a serva do Senhor;  faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

 

Neste espírito de  contemplação das obras maravilhosas  que o Senhor continua cumprindo para nós, e  para as quais desejamos agradecer ao Senhor, convidando cada um de vocês a unir-se ao nosso louvor, temos a alegria de comunicar que na sexta, 6 de dezembro, nosso irmão Dom Bruno Bonifácio, celebrou sua Formatura em Teologia na Faculdade Teológica UNISAL – Campus Pio XI, em São Paulo.

Foi uma festa linda e profunda, permeada de espírito de sabedoria e de autêntica fraternidade  entre todos os membros da turma dos alunos, bem como dos professores e  dos colaboradores.

Agradecemos ao Senhor para este passo importante na vida da nossa pequena comunidade monástica, e ainda mais na vida do nosso irmão Dom Bruno, ao qual desejamos de todo coração crescer  na capacidade de “habitar consigo mesmo no Senhor”, e de irradiar para nós a sabedoria que nasce desta relação de intimidade com o Senhor.