Homilia XXXIII Domingo do Tempo Comum
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Permanecendo firmes  na  fé  ireis ganhar a vida”

 

Leituras: Ml 3, 19-20°; 2 Ts 3, 7-12; Lc 21, 5-9

 

           Ao aproximar-se à cidade de Jerusalém os discípulos de Jesus, como todo israelita, ficam encantados pela beleza da cidade e a majestade do Templo de Salomão.  Para todos  o templo era  o símbolo  da especial eleição de Israel por parte de Deus, e garantia da sua proteção. “Algumas pessoas comentavam a respeito do templo  que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas”(Lc 21,5).

Jesus, porém, vê as coisas mais em profundidade.   Convida a não  deixar-se iludir pelas aparências. “Vós admirais estas coisas? Dias virão em que  não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído” Lc 21,6). A mesma admoestação tinha dado, séculos antes,  o profeta Jeremias contra uma sociedade formalista e superficial, que seguia praticando os ritos formais da religião, mas conduzia uma vida em contradição, por  causa de violência, hipocrisia,  ganância  de dinheiro e poder (Jer 7). Tudo o que é construção dos homens, se não tem uma autêntica relação com Deus, é inconsistente. Não garante felizidade.  Até o templo, lugar sagrado por excelência, que tem valor de símbolo da especial relação de Deus com seu povo e do povo para com Deus, se  à freqüência dos ritos  não corresponde uma vida autêntica vivenciada na fé e na pratica da justiça para com o próximo, constitui  uma trágica ilusão de salvação. 

As ilusões  podem nos enganar seja no âmbito da vida religiosa e de piedade, confiando no brilho das  instituições e  organizações religiosas, ou mesmo na nossa justiça pessoal, como admoesta Jesus com o símbolo do templo.

Mas a mesma ilusão  pode acontecer pela falsa segurança e esperança posta na disponibilidade dos bens materiais, fazendo deles um novo ídolo da nossa vida. Esta talvez é uma tentação ainda mais emergente no nosso tempo de desenvolvimento econômico relativamente mais  produtivo.

Jesus admoesta com forca também contra esta tentação, com a parábola do  rico empreendedor que constrói novos celeiros para recolher e colocar no mercado ao tempo mais oportuno uma colheita  super-abundante. Confiando nesta disponibilidade se ilude de ficar feliz, mas na mesma noite vai morrer (cf Lc 12, 27-39)

É preciso olhar e relacionar-se à realidade da historia de cada dia, com suas contradições e perdas, não com medo, mas como a novas oportunidade de uma vida mais autêntica. Não correr atrás das aparências de fáceis e miracolísticas soluções, mas ao mesmo tempo não deixamo-nos paralizar pelo medo:  “Cuidados para não serdes enganados, porque muitos virão dizendo ‘Sou Eu’..... “Não fiqueis apavorados!” (Lc 21, 8-9).

            A historia está nas mãos de Deus. Ele é o Deus da vida, que cuida da vida em maneira generosa e fiel, como podemos constatar  cada dia contemplando a beleza das flores do campo ou a alegria dos pássaros,  aos quais o Pai fica providenciando com cuidado, embora sejam criaturas tão frágeis e menos  nobres do que nos, filhos e filhas dele (cf Mt 6, 25-33).

            Se nos enfrentarmos a vida,   seguindo a sabedoria de Deus, inevitavelmente vamos  encontro às contradições com o “mundo”, com o “homem velho”, como diz Paulo. Nascem marginalizações e perseguições para os  cristãos, como podemos constatar todo dia, mesmo nos paises de tradição cristã e nas escolhas profissionais.

“Sereis presos e perseguidos....por causa do meu nome”. Mas isso, segundo o paradoxo da maneira de atuar por parte de Deus,  não será para nós perda, mas “ocasião em que testemunhareis a vossa fé” (Lc 21, 12-13).

            É na relação vital com o próprio Jesus, que podemos e devemos encontrar os critérios e a força com que  defendermos, e não recorrendo aos mesmos critérios humanos com os quais os inimigos da cruz nos julgam e condenam. “Fazei o firme propósito  de não planejar  com antecedência  a própria defesa; porque eu vos darei palavras  tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater” (Lc 21, 15). 

Esta foi, e continua sendo, a força e a razão da paz dos mártires e dos cristãos que dão testemunho da própria fé nas situações difíceis que também hoje conhecemos. Jesus não  nos proíbe de atuar com prudência e utilizando os meios que a lei põe  a nossa disposição,  mas de não colocar nossa confiança somente nos critérios humanos e nos subterfúgios  da esperteza.

            Se ficarmos firmes na fé e no amor,  fortalecidos pela graça do próprio Espírito de Deus, conseguiremos “ ganhar a vida” no sentido evangélico, isso é entregando-a nas mãos de Deus: “Mas vós não perdereis um só fio  de cabelo da vossa cabeça. É permanecendo firmes, que ireis  ganhar  a vida” (Lc 21, 18 -19) .

O apostolo Paulo, na segunda leitura, exorta com vigor a não fugir num   espiritualismo desencarnado, mas a aceitar em maneira concreta as obrigações da vida de cada dia. Esta é o lugar do exercício da nossa fé e da nossa responsabilidade, procurando reconhecer o Senhor que vem ao nosso encontro, enquanto esperamos a sua vinda gloriosa ao fim dos tempos. Este é o clima espiritual que a igreja nos convida a cultivar e a experimentar nestas ultimas semanas do Ano Litúrgico. Este acabará  com a celebração, domingo próximo – ultimo domingo do ano litúrgico -  da solenidade de Cristo, Rei do universo: rei da criação e da historia, rei da vida de cada um de nós, através da doação de si mesmo para nós no amor e no serviço. Ele é o caminho para aprender que , ficando em relação com Ele, e vivendo na recíproca caridade , “servir é reinar!”