Homilia XXI Domingo do Tempo Comum
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DOMINGO XXI – C

 

Esforçai-vos  para entrar pela porta estreita

 

Leituras Is 66,18-21; Hb 12, 5-7. 11-13; Lc 13, 22-30

 

“Alguém lhe perguntou :Senhor, é verdade  que são poucos os que se salvam?  Jesus lhe respondeu:Fazei todo esforço possível para entrar  pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão” (Lc 13,23-24).

Uma pergunta preocupada. Uma resposta que, à primeira vista, pare acentuar a preocupação e o medo do interlocutor sem nome. Talvez este possa ser cada um de nós, ao olhar ao nosso ultimo destino.

Mas a  resposta de Jesus  não quer incutir medo.  Ela pretende despertar  o sentido de responsabilidade  do interlocutor,  orientando-o  para   uma passagem decisiva, da confiança nas próprias boas obras, para a  relação autêntica do coração com Deus, na liberdade e no amor.

Um dia, um jovem muito pio e comprometido na observância dos mandamentos da lei  de Moisés, acorreu a Jesus para perguntar o que devia fazer para alcançar  a vida eterna. Jesus  se alegrou com ele, pelo seu serio compromisso. Mas, se ele quer de verdade alcançar a plenitude da vida, há de percorrer um caminho totalmente novo: deixar todos seus bens, iniciando da confiança na sua observância da lei, e iniciar a seguir o próprio Jesus; passar da auto- referência religiosa, feita de observâncias valiosas,   para a  relação pessoal e sem reserva com o próprio Jesus. Pois Ele é o caminho certo para alcançar a verdade de si mesmo,  a vida,  e a vida  plena! (cf Mt 19, 16 -22). 

A porta que Jesus abre diante o jovem, é estreita demais, para que ele consiga atravessá-la sem despojar-se  de si mesmo e das coisas, mesmo santas, em que confia.  Aquele encontro, iniciado com grande entusiasmo  por parte do jovem,  e acolhido com tamanha  benevolência por parte de Jesus, acaba num clima de  grande tristeza: “O jovem,  ouvindo esta palavra, saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens” (Mt 19,22).  Qual foi o seu futuro ? Ninguém sabe....

O horizonte que Jesus abre para o anônimo interlocutor, preocupado para sua salvação, é o mesmo. Precisa estar vigilantes, a fim de que a Palavra de vida não fique sufocada dentro de nós , pelas preocupações da vida, como o trigo pelos  espinhos  (cf Mt 13,22).  Que   o coração não se torne pesado pelas mesmas preocupações e devassidão  (cf Lc 21,33), em vez de estarmos  prontos para a vinda do Senhor, que a cada momento pode bater à nossa porta. A parábola do dono da casa, que fecha a porta, enquanto estamos perdidos fora, e que recusa abrir,  a motivo do nosso descuidado, alerta na mesma direção.

Não é suficiente a prática religiosa, se não é acompanhada da autêntico e generoso compromisso interior,  na relação com Deus e com os irmãos. “Senhor, abre-nos a porta...Não  sei de onde sois......Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste nas nossas praças! (talvez alusão  à celebração da eucaristia, lugar privilegiado de encontro com Jesus)....Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça” (Lc 13,25-27).

Se os mais próximos por pertença institucional, não souberam aprender o estilo de Deus,  que é  o amor e liberdade,  e por isso  não foram dignos de entrar na casa da vida, pela sua porta apropriada, Deus sabe abri-la sem medida aos mais longínquos, para que participem à festa do reino. “Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no reino de Deus” (Lc 13, 29). Deus ama as periferias da vida, e nelas procura e encontra a vida. Uma autêntica reviravolta da sorte, provocada pela misericórdia  e a gratuidade do amor de Deus. “E assim há últimos que serão primeiros e primeiros que serão últimos” (Lc 13, 30).

Como pode acontecer esta reviravolta da sorte, humanamente incompreensível ?  O Senhor, não olha a superfície dos acontecimentos e as  aparências das pessoas, mas olha na profundidade dos corações, e ele mesmo os renova. “Eu, que conheço suas obras e seus pensamentos, virei para reunir todos os povos e línguas; eles virão e verão minha gloria” Is 66, 18).

O profeta, que tem vivenciado a terrível experiência do exílio em Babilônia (sec VI) com a destruição e a perda de todos os elementos da identidade social e religiosa de Israel, na luz do Senhor , descobre  que a verdadeira pertença ao povo de Deus, não é constituída pela continuidade  biológica da raça, nem pela prática superficial das normas  e dos ritos, mas pela pureza do coração  e a confiança no Senhor.

Assim, agora ele pode proclamar que também os pagãos, cujo coração é conhecido pelo Senhor, pertencem ao seu verdadeiro povo. Eles, considerados perdidos e impuros, excluídos  da aliança de Deus, impedidos de ter acesso ao templo de Jerusalém e a qualquer participação ao culto sagrado de Israel, agora  são chamados pelo Senhor a fazer parte do seu povo, a oferecer seu culto em perfeita legitimidade. Coisa ainda mais impensável para um israelita observante, entre eles o Senhor, escolhe quem possa exercitar a tarefa de “sacerdote e levita”, que, mesmo entre os israelitas,  era competência exclusiva dos membros de uma só tribo, a de Levi! ( Is 66, 20-21).

A “porta estreita”  do céu, se dilata além  de toda medida, sob a pressão do amor misericordioso e gratuito de Deus. Mas este amor frutifica no terreno que se abre  na simplicidade e na autenticidade da fé  e da caridade. 

Paulo, depois de ter afirmado que Cristo tem derrubado todo muro humano que pretendia separar judeus e pagãos, pela única forca do seu amor sacrificado  na cruz, e tem aberto para todos o acesso ao Pai no seu Espírito (Ef 2, 11-22), indica o caminho a percorrer  para morar definitivamente na casa de Deus, como seus amigos e familiares: “Precisais renovar-vos, pela transformação espiritual da vossa mente e revestir-vos do homem novo, criado a imagem de Deus, na verdadeira justiça e santidade” (Ef  4, 24).

Santo Anselmo, um monge do sec XII e  grande mestre de vida espiritual, destaca  que  aprendendo a viver no amor, segundo o estilo de Deus, antecipamos  desde já nossa passagem através da “porta estreita” da casa de Deus e a morada nela. “Deus não tem necessidade de coisa alguma tua; ele só te pede o amor, sem o qual não receberás o reino. Dá-lhe o amor e recebe o reino; ama e o possuirás....Ama a Deus mais que a ti mesmo e já começas a possuir nesta terra o que desejas ter em plenitude no céu” (Carta 112).

Jesus não  aperta nem fecha a porta  do reino. Pelo contrário,  a abre na medida sem medida do amor do Pai.  Amor pede amor.

 O caminho, seguindo Jesus, é caminho de libertação, ao preço do desapego de tudo o que nos impede caminhar na liberdade, iniciando do desapego de nós mesmos. O autor da Carta aos Hebreus nos encoraja:  “Meu filho, não despreze a educação do Senhor, não desanime quando ele te repreende, pois o Senhor corrige a quem ama e castiga a quem aceita como filho” ( Hb 12, 5-6).

São Bento indica o mesmo caminho  para o monge que se coloca no seguimento de Jesus: “Nesta instituição esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado. Mas se aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, ditada por motivo de equidade, para emenda dos vícios ou conservação da caridade, não fujas logo, tomado de pavor,  do caminho da salvação, que nunca se abre senão por penoso inicio. Mas, com o progresso da vida monástica e da fé, dilata-se o coração, e com inenarrável doçura de amor, corre-se pelo caminho dos mandamentos de Deus” /RB, Prol  47-49)