Homilia XV Domingo do Tempo Comum
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XV DOMINGO do TEMPO COMUM–  ANO C

 

 

Amarás o Senhor, teu Deus, de todo teu coração.... e ao teu próximo como a ti mesmo

 

Leituras: Dt 30, 10-14; Cl 1, 15 – 20; Lc 10, 25 -37

 

“Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos assaltantes.....Um sacerdote estava descendo por aquele caminho. Viu o homem, e  seguiu adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu  com um levita....Mas um samaritano......viu e sentiu compaixão. Aproximou-se dele e  fez curativos.” (Lc 10, 30-33).

            De que lado estamos ? Com o sacerdote e o levita, ou do samaritano ? Jesus apresenta uma alternativa clara a quem diz  estar procurando a vida eterna: sair da ilusão  de pensar ser suficiente “conhecer” as leis de Deus, como “ o mestre da Lei” que questiona Jesus;  sair da “bolha de sabão,” da  vida limitada aos ritos sagrados, como o sacerdote e o levita.

            Jesus destaca que o verdadeiro “conhecimento” da lei, é o amor que compromete a tornar-se solidário com o irmão, e o verdadeiro “culto” a Deus é reconhecê-lo no irmão  necessitado e ferido à beira do caminho da vida, e tomar cuidado dele. Na linguagem teológica  costumamos dizer que, enquanto Jesus se identifica com  o irmão, e sobretudo com o mais pobre, este é “ o sacramento de Jesus”, isso é o lugar  vivente onde o Senhor se deixa encontrar. Papa Francisco gosta usar uma expressão  bem mais forte e  existencial,   rica de significado e desafiadora: “ o pobre é a carne de Cristo”, a sua nova e sempre atual “encarnação e presença” no meio de nós. 

            De cada irmão cada um de nós pode e tem que dizer: “O Verbo de Deus se fez carne e habitou no meio de nós”, diante de mim, hoje! Como diz a Tomé, desconfiando da  sua ressurreição na tarde de páscoa, Jesus repete para cada um de nós: “Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê” (Jô 20, 27).

            Este foi o olhar  do coração compassivo, que conduziu São Francisco a abraçar e  beijar as pragas do leproso de Assis, e a fazer de toda a sua vida uma vida  como a de Jesus.  Tal foi a luz e a força da fé, que ao longo dos séculos e até nossos dias,  gerou tamanho numero de “Bom samaritanos”, nas nossas comunidades, mesmo entre pessoas simples empenhadas no ritmo cotidiano das próprias famílias,   além dos luminosos exemplos de caridade e de testemunhas excepcionais de dedicação ao Cristo nos seus pobres, como uma  Madre  Teresa de Calcutá,  uma Irmã Doce, ou uma Bem-aventurada Nhachica !

            Mas o amor , como a fé, não vive  delegando aos outros  o cumprimento do próprio chamado. Nos interpela em primeira pessoa.

Descuidar do irmão que se encontra em qualquer necessidade, é descuidar de Cristo. Cuidar do irmão, mesmo com o mais simples dos gestos de atenção, é cuidar de Cristo e motivo para receber seu agradecimento, que é a plenitude da vida: “ Quem der, nem que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos, por ser me discípulo, em verdade vos digo que não perderá  sua recompensa” (Mt 10,42).

A Palavra do Senhor nos revela que, em maneira surpreendente, o próprio Cristo, se identifica, ao mesmo tempo,  com  o homem abandonado meio morto pelos ladrões à beira da estrada, bem como com o samaritano, cuidadoso e solidário para socorrer o ferido.

Se ele solicita nossa atenção e dedicação nas sua necessidades, é porque primeiro ele teve compaixão de nós, de cada um de nós, levou sobre si nossos sofrimentos, e carregou nossas dores  (cf Is   54,3-4).  A tradição cristã identificou o “Bom samaritano” com o próprio Cristo,  e indicou ao seu discípulo a  mesma atitude, se  quer tornar-se de verdade “discípulo de Jesus”.

Ao mestre da lei, que tinha citado a palavra sagrada que une o mandamento de amar a Deus com todas as próprias energias e ao próximo como a se mesmo, Jesus diz: “Tu respondeste corretamente. Faze isto e viverás” (Lc 10, 28).

A reflexão sobre a relação de identificação entre Deus e o irmão, será conduzida aos mais altos níveis  por João,  “ o discípulo que Jesus amava”. Ele   tinha desenvolvido a partir desta excepcional experiência  pessoal, uma particular sensibilidade sobre o dinamismo e as exigências do amor fraterno. “ Quem não ama  seu irmão,  não é de Deus” (I Jô 3,10); “Se alguém disser:’Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a  quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar” (I Jô 4,20).

Jesus denuncia  a falta de humanidade e a hipocrisia que se esconde muitas vezes sob  a prática  religiosa, e a aparente tranqüilidade dada pela observância da moral corrente.

Para onde enxergam nossos olhos,  ao caminhar pelos caminhos da vida, que passam dentro nossas casas, nossas comunidades, nossas atividades profissionais, nossas práticas religiosas ?

Para onde vão, e onde  param, nossos passos, encontrando irmãos feridos à beira  da nossa mesma estrada ?  Talvez a preocupação de levar adiante nossos compromissos  pessoais e nossos projetos, nos descarreguem da  responsabilidade de ter cuidado dele. Talvez as dificuldades estruturais, sociais, políticas, econômicas, da nossa sociedade, nos justifiquem para não iniciar a fazer a nossa parte. Uma pequena vela acesa, sozinha, não pode vencer a noite. Mas muitas pequenas velas acesas, nas mãos de muitas pessoas,  conseguem iluminar o caminho.

O que é impelente, nas palavras de Jesus,  é que cada um “se faça próximo” ao homem que fica ferido ao lado da nossa estrada, com o carinho e  a solidariedade efetiva do samaritano. Este é o modelo de verdadeira humanidade e do verdadeiro culto a Deus, embora, aos olhos  do mestre da lei, não tenha nenhum titulo para ser tomado em consideração, sendo ele não somente estrangeiro, mas desprezado,  por ser  considerado   desviado do ponto de vista religioso de Israel.

Na nossa sociedade pluralista e  secularizada, quantos exemplos de “ bom samaritano, com o olhar atento e o coração compassivo” se  encontram, e  deles  podemos receber lições  de autêntico  espírito evangélico ! Talvez tenhamos medo de enxergar   para estes, por  estar eles nos incomodando,  fechados no nosso  pequeno mundo  de  bem-estar individual e de grupo, ou no  piedoso  horizonte das nossas praticas religiosas ?

Na sua visita pastoral, realizada na semana passada,  à pequena ilha de Lampedusa, no centro do mar mediterrâneo, lugar de  acolhida emergencial de inúmeros  prófugos  da África e da Ásia, e sepulcro- símbolo de  milhares de mortos em numerosos naufrágios, papa Francisco tem falado de “globalização da indiferença”, como causa primeira de tais tragédias, e atitude difundida entre autoridades e povo do ocidente, que parece deixar  cada um tranqüilo, na defesa do seu míope bem-estar.

Como sublinha com vigor o Deuteronômio (I Leitura), entrar no caminho do Senhor, o que ele mesmo percorreu para nós,  da solidariedade com  seu povo submisso a escravidão no Egito, até  a assunção sobre si dos nossos males e dos nossos pecados, exige uma conversão radical das nossas atitudes interiores e do nosso modo de agir..  “Converte-te para o Senhor teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma” (Dt 30,10).

A surpresa divina, está no fato que a capacitação de  tal  radical orientação da existência do homem para o Senhor, orientação que liberta o amor para Deus e para o irmão, não vem do exterior do homem, mas da profundidade do seu próprio coração. Quase um marco divino impresso na tecido da consciência, que faz  desejável  e gerador de vida o mesmo mandamento de amar a Deus e ao próximo. “ Na verdade este mandamento que hoje te dou....não está no céu....nem está do outro lado do mar...Ao contrário, esta palavra está bem ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que a possa cumprir” (Dt 30, 11.12-14).

De fato esta capacitação não vem de nós, e o mandamento de amar com o coração de Deus, não nos é imposto como um jogo pesado, mas é o primeiro e fundamental fruto da nova aliança, inscrita por Deus no coração  do homem, e alimentada pelo Espírito Santo: “Esta é a aliança que concluirei  com a casa de Israel depois desses dias. Porei a minha lei no fundo de seu ser  e a escreverei em seu coração. Então serei seu Deus e eles serão meu povo. Eles não terão mais que instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo: “Conhecei o Senhor”, Porque todos me conhecerão” (Jr 31, 33-34).

O Apostolo João  ilumina em modo admirável a profundeza do dom divino da aliança  nova em Cristo, evidenciando a ação do Espírito  Santo na consciência do discípulo de Jesus: “Quanto a vós, a unção que recebestes dele, permanece em vós e não tendes necessidade de que alguém vos ensine” (I Jô 2,27).

O Espírito atua para abrir nossos olhos, fazer palpitar de compaixão nosso coração, ativar nossas mãos. É a Ele que  prestamos ouvido  e obediência ?